Do Nordeste á Africa: o tom da toada!

A toada, fio condutor do espetáculo apresentado em três atos na arena do Bumbódromo, popularmente chamada de “música de boi”, deriva do verbo toar que por sua vez significa emitir um som forte, ressoar. Sua origem não é determinadamente precisa, mas acredita-se que seja derivante das poesias dos trovadores, das cantigas pastoris e do afamado fado português.

Trazida pelos colonizadores, em terras tupiniquim ganhou uma nova estrutura  (melódica, instrumental e contextual). A toada tornou-se o gênero dos campos, fazendas, senzalas e lavouras: de pessoas simples do meio rural. Facilmente, e de fato, um gênero de “terreiro e quintal”. Chamada no Maranhão de “Loa”, a toada ganhou uma faceta cultural e de resistência dos negros com seu colorido e batuques que caracterizam o Bumba-Meu-Boi.

Em Parintins, a toada ganha uma nova regionalização em sua estrutura e contextualidade mantendo um ponto em comum com a vértice nordestina: a lida com o gado. Suas características são preservadas, ou seja, cantada sem forma fixa, com caráter melodioso e dolente e seu texto entoado de modo cadenciado, curto e narrativo. Estruturada em forma de estrofe e refrão com variante entre amorosa, lírica ou cômica e de características musicais simples e plangente.

Com o surgimento do Festival Folclórico de Parintins, criado pela JAC  (Juventude Alegre Católica) em 1965 presidida por Raimundo Muniz, a toada relatava o cotidiano do caboclo parintinense, lugares, personagens e as paragens do lugar com um forte viés “transgressor” diminuindo o rival, o contrário. Nesse sentindo, podemos destacar Mestre Ambrósio, Lindolfo, Raimundinho Dutra, Braulino entre outros.

Os embates entre Caprichoso e Garantido tornaram-se cada vez mais acirrados aumentando a rivalidade,  o que levou a disputa à outro palco: o Bumbódromo. Com a arena adequada para os Bumbás, sua disputa não só crecesceu como também extrapolou os limites da pequena cidade do interior e ganhou a capital: Manaus.

Em Manaus, a toada ganhou uma nova cara, relevância e valor: a identidade do amazonense com status de música popular da Amazônia. Como ritmo próprio agregou musicalidade, ou seja, o simples de antes (tambor, caixa e palminha) incorporou-se ao repique, aos instrumentos de cordas (charango, violão, baixo e até guitarra), aos instrumentos de harmonia (teclados) e, por fim, aos instrumentos de sopro (flautas e os nipe de metais).

A evolução da toada não se deu apenas no âmbito musical, na escrita (letra) também recebeu outros elementos com o surgimento de novos compositores e, consequentemente, novos estilos. A toada passou a decantar costumes, crenças, ritos e lendas indígenas sem largar a figura do caboclo, em outras palavras: tornou-se “cabocla de alma indígena”. Neste contexto podemos destacar Ronaldo Barbosa, Emerson Maia e Inaldo Medeiros. Advinda dos trovadores, a poesia em sua forma culta também foi agragada à toada na genialidade de Chico da Silva, Tadeu Garcia e Paulinho Dú Sagrado.

Esse “prelúdio” se faz necessário para o foco principal deste texto, as duas vértices centrais da toada atual: o Nordeste brasileiro e a Mãe África. E quando refiro-me ao Nordeste, refiro-me a “nordestinização” (e não ao Auto do Boi, que diga-se de passagem teve seu destaque inicial com “Cordel Caboclo” de Erik Nakanome e Tarcísio Coimbra antes de torna-se um acontecimento com “Auto do Boi Garantido” de Enéas Dias, Marcos Moura e João Kennedy e consolidar-se com “Desejo de Catirina” dos mesmos compositores) da toada que iniciou-se, com a explosão de “Miscigenação” (Enéas Dias), passando pelas brilhantes “Viva a Cultura Popular” (Guto Kawakami, Adriano Aguiar e Geovani Bastos) e “Amazônia nas Cores do Brasil” (Adriano Aguiar). Essa tríade musical é o cromossoma genético das toadas genéricas de hoje (Aliás, esse termo “genéricas” não poderia ser mais condizente). A “afrodescendência” da toada teve um início quase esquecido, porém importante com “Rei Negro – Um Tributo à Liberdade” (Caprichoso 1988, nesse ano uma inovação jamais repetida: um homem [negro Zumbi] conduzindo o estandarte), porém foi com a toada “Quilombolas da Amazônia” (Enéas Dias, Marcos Moura e João Kennedy) que o universo negro “ganhou” notoriedade no Festival.  Este ano, a Mãe África, seus orixás e sua representatividade estão maximizados nos repertório de Caprichoso e Garantido com “Boi de Negro” (Moisés Colares, Raurison Nascimento, Frank Azevedo e Ricardo Linhares); “Consciência Negra” (Paulinho Dú Sagrado e Izoney Thomé); “As Cores da Fé” (Enéas Dias, Marcos Moura e João Kennedy) e “Mãe Terra” (Adriano Aguiar). A “velha” toada cabocla de alma indígena, hoje é uma jovem cabra da peste com trajes afro”. Será a curva? A reta? Ou o ponto fora? Saberemos em julho próximo.