Deltas: heróis ou vilões? Uma história mal contada!

 INTRODUÇÃO

 

Heróis e vilões são personagens de uma eterna luta travada entre o bem e o mal, a justiça e a arbitrariedade, a proteção e o abandono, a ética e a imoralidade em um mundo meramente dito social e organizado. Os arquétipos e estereótipos destes personagens paradoxais variam de acordo com o local e a sociedade em que são inseridos e o que os diferem são suas ações, personalidades e desejos. Em Parintins, surgiu o grupo que mudou para sempre a disputa entre Caprichoso e Garantido: os “Deltas”. A bovina dúvida paira no ar: serão heróis da Baixa  ou vilões do Festival? De fato, o crime recompensa e os fins justificam os meios?  Em edição especial, de número 1.000, o cretino colunista narra a lenda da criação com seus criadores e suas criaturas para todo o mundo bovino, porém cão mais cão do que bovino dividido entre azul e vermelho tomar conhecimento. Vamos à leitura!

 

CAPÍTULO I:

NASCIMENTO

 

Com a criação, em 1988, do Centro Cultural e Desportivo Amazonino Mendes, conhecido popularmente como “Bumbódromo”, o Festival de Parintins ganha um novo patamar e visibilidade aliados à “conquista” da capital [Manaus]. O ritmo oriundo da ilha passou a ser a grande novidade entre os jovens manauaras reunindo um número cada vez mais expressivo em seus eventos chamados de ensaios nos espaços físicos denominados de “currais”.

O Bar do Boi [Caprichoso] e o Curral do Boi [Garantido] realizado pelo Movimento Marujada e Amigos do Garantido, respectivamente, foram os motores impulsionadores da toada e as vitrines culturais da cidade de Parintins em Manaus. No inicio da década de 90, tanto os bois quanto as toadas passaram por profundas transformações que resultaram em uma revolução artística, estética, estrutural e cênica musical.

Nestas transformações, o Boi Caprichoso pode ser apontado como pioneiro ao inserir em suas toadas novos elementos (teclados e recursos vocais, por exemplo), adotando ao seu repertório um novo estilo (harmônico e melódico) de composição com as obras de Ronaldo Barbosa, com a ousadia criativa e rítmica da banda Canto da Mata e, ainda, com a formatação de suas apresentações em três atos adaptada por Simão Assayag , a ópera cabocla.

A soma destes fatores resultou em um Caprichoso forte e tricampeão na gestão Ray Viana, quase tetracampeão em 1997 e campeão em 1998 (o ano chave desta história) na primeira gestão Joilto Azêdo. Após ser tricampeão do festival, Ray Viana entregara o Boi da Estrela para o vencedor da eleição da Francesa e do Palmares o empresário Joilto Azêdo.

Na Baixa do São José, o vencedor foi José Walmir. O ano de 1997 foi um ano histórico tanto quanto dramático para o Boi Caprichoso com a derrota por impugnação contra o então Apresentador do Boi, Gil Gonçalves, que saudou o governador do Estado à época, Amazonino Mendes, antes da apresentação na arena do Bumbódromo o que era terminantemente proibido pelo regulamento da disputa resultando na perda de 10 pontos do bumbá.

Em 1998, o Boi Caprichoso dera o troco ao Boi Garantido vencendo o festival de forma avassaladora: em todos os itens. Naquele ano, Arlindo Jr. desempenhou dupla função (Apresentador e Levantador de Toadas) batendo em dos grandes mitos e ícones encarnados de uma só vez: Paulinho Faria e David Assayag. Não bastasse, também levou o título de melhor galera (antigo item 21).

A vitória da Francesa frente à Baixa foi tão profunda que poucos dias depois do resultado ocorrera uma reunião estratégica reunindo a cúpula e as mentes pensantes do Boi para traçar um plano de reação e recuperação.

Foi aí que entrou em cena o personagem que mudaria para sempre a história e a disputa entre os bois em Parintins: Armando do Vale. Funcionário da Caixa Econômica Federal que fora acusado em uma ação judicial por desvio de dinheiro naquela instituição financeira e tempo depois inocentado em juízo. A relação com o Boi Garantido começara por intermédio da namorada Valéria da Carbrás.

Cunhã-poranga encarnada à época e filha do recém-eleito prefeito de Parintins Carlinhos da Carbrás, o amado de Valéria passa a desenvolver um papel de grande relevância na administração municipal com status de super “secretário extraordinário”. No organograma hierárquico da gestão, nosso personagem principal ocupava simbolicamente a terceira colocação só estando abaixo do próprio prefeito e de seu irmão que geria as finanças do município, mas seu transito nas secretarias era livre.

O status de Armando na gestão Carbrás [pai] era tamanho que o permitia alugar um jatinho (táxi aéreo) todos os dias para trabalhar na ilha e retornar a Manaus ao final do expediente. Com o fim do relacionamento e a cassação do prefeito/sogro, Armando engata namoro com a empresária e rubra sócia Ana Paula Perrone que de certo modo foi a responsável em introduzi-lo nas entranhas do Boi Garantido e em seu núcleo de poder.

Credita-se a Perrone sua apresentação a Raul Góes, recém-eleito presidente da Baixa. Não precisou mais que duas ou três conversas para que ambos tornam-se amigos e a partir em diante, parceiros. Supostamente, dissera Góes certa vez: “Não preciso mais do que 10 Armandos no Boi”.

Talvez, este número tenha sido a principal razão do surgimento de nossos personagens coadjuvantes. Foi através da amizade entre Armando do Vale e Raul Góes que nascera o audacioso projeto do pentacampeonato. Idealizado, planejado e executado pela dupla, o mesmo consistia em tornar o Garantido cinco vezes campeão do festival de forma consecutiva. E por muito pouco o plano não alcançou seu objetivo: foi tetracampeão.

Armando passou a ser o homem por “trás” do boi [e do presidente]. Foi ele a sombra que agiu com maestria nos bastidores do festival e, como toda sombra, ficava longe dos holofotes: função que cabia aos presidentes. Para desempenhar o projeto, dentro daquilo que fora planejado, Armando reuniu um seleto grupo de “iguais” (descritos por ele como apaixonados e abdicados colaboradores do Boi) que o seguiram com entusiasmo e fidelidade.  Em 1999, com o apoio, conhecimento e consentimento da alta cúpula do Boi, nascera o dito “Comando Delta”, ou simplesmente, “Deltas”.

 

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Figura 01: Modus Operandi.

 

CAPÍTULO II:

OBJETIVO E RESULTADOS

 

O grupo, fecundado por Armando no ventre presidencial de Raul, tinha um só objetivo: vencer o Boi Caprichoso. Porém, a vitória pura e simplesmente não bastava era necessário devolver a humilhação sofrida em 98 com juros e mora. Para isso, foi montado um poderoso esquema de captação, sedução e aliciamento de jurados. O modus operandi do grupo consistia em viajar meses antes do festival pelos Estados a fim de divulgar o Boi Garantido em universidades, secretarias (estaduais e municipais) de cultura; para professores, mestres e doutores da área artística. Obviamente, que esta prática requeria certo grau de investimento, pois eram necessários recursos para o deslocamento, presentes e mimos aos visitados. Todos tratados como potenciais e possíveis jurados do Festival de Parintins sendo o próprio Boi o caixa de saída destes recursos. Esse trabalho era desempenhado pelos “sombras”, membros de “patente” mediana na organização.

No “cardápio” de opções havia almoços, jantares e até festas de aniversários com a luxuosa participação de itens oficiais e do próprio boi “em veludo” e coração. Os custos eram elevados e de onde tirá-los? A princípio, da venda antecipada dos ingressos para o festival. Relações estreitadas e amizades feitas, o próximo passo era aguardar o sorteio dos Estados de onde viriam os jurados semana antes da festa. Uma vez sorteados, hora de entrar em contato com os visitados para aquela “ajuda” caso o nome não fosse o do próprio, ou seja, quando o escolhido era o de um conhecido, subordinado, amigo, parente e etc.

O passo seguinte era os das impugnações: o jogo de eliminações. Fiscais de Caprichoso e Garantido anulavam possíveis jurados a favor de um e de outro. Diga-se de passagem, que por muitos anos o Boi Caprichoso ficou sozinho nessa árdua tarefa. O modus operandi era conhecido, porém não combatido com afinco o que resultou em um Caprichoso submisso que se permitia ser enganado por pura “inocência” e sem nenhum poder de reação.

Logo na estreia, em 1999, o Boi Garantido imputou ao Boi Caprichoso a primeira derrota do projeto: 25,5. Sob a presidência de Raul Góes, o projeto foi iniciado com extremo sucesso. Em 2000, o grupo realizou o seu maior feito: um empate numa disputa de dois. Em uma clara demonstração de como seriam os anos seguintes.

Em 2001, Antônio Andrade (dando início à tradição do Diretor Financeiro da gestão no poder em ser eleito o próximo presidente. Foi assim com Antônio financeiro de Raul; Zé Walmir financeiro de Antônio; Vicente financeiro de Zé Walmir e Telo financeiro de Vicente) vence a rubra eleição da Baixa do São José dando continuidade ao projeto e manutenção da parceria com Armando e os “Deltas”. Quando a Nação azul e Branca achou que já havia levado uma “surra” o grupo imputou um tricampeonato com 92,5 pontos de diferença que no ano seguinte tornaria-se em tetracampeonato. Cabe uma ressalva neste ano: a do suposto jogo duplo.

Há rumores muito dissimidado na Francesa, porém não confimado de que em 2001 Armando teria assumido um “termo de colaboração” com o Boi Caprichoso durante a gestão Dodó Carvalho. Mas, que muito próximo ao festival retornou a atuar a favor do Boi Garantido em reconciliação com Antônio Andrade garantindo, assim, o título à Baixa do São José.

Em 2002, os resultados/vitórias do Boi Garantido com a indispensável ajuda do grupo levaram os poetas da Baixa a comporem: “O tetra é uma consequência estamos no rumo do penta e o que te resta é só chorar”. O projeto “Pentacampeonato” estava indo de vento em polpa e prestes a ser concluído: só faltava mais uma vitória. Mas, o modus operandi deu muito na vista e gerou revolta no mundo bovino, à época ocorreu à troca de governo e recaiu sobre o eleito [Eduardo Braga] uma grande pressão para intervir nos bastidores do festival. Era de extrema necessidade a vitória do Boi Caprichoso em 2003, caso contrário não haveria condições para as disputas futuras com o Garantido pentacampeão com o auxilio dos “Deltas”.

O primeiro passo para evitar o rubro pentacampeonato foi a criação de um grupo antagonista no Boi Caprichoso: os chamados “Alfas”. O objetivo do grupo era claro e difícil: brecar as ações dos “Deltas” desde as viagens ao assédio/aliciamento dos jurados, ou seja, anular Armando e seus colaboradores compondo um campo neutro, pois dentro da arena a superioridade azul era incontestável.

Para o bem geral de todos e da nação: Caprichoso campeão!

Fora “quebrado” o projeto idealizado em 99, mas engana-se que foi fácil e de que não houve relutância por parte encarnada. Reuniões privadas, visitas em salas governamentais, diálogo, barganhas e contra medidas foram usadas para evitar o “fim do festival”. Pois, o Boi Caprichoso era exímio conhecedor de tudo o que acontecia nos bastidores do festival [em detalhes sórdidos] e sempre optou por deixar tudo em reservado pagando caro por isso.

A alegria do povo azul não durou muito, a trégua encarnada foi breve com Zé Walmir na presidência do Boi Garantido (2003 a 2005) e, assim como seu antecessor, manteve a parceria com os “Deltas”. Resultado?  Mais um bicampeonato para a conta da Baixa do São José. Entra em cena a gestão Vicente de Matos (2005 a 2009) obtendo outro bicampeonato utilizando o velho e bem sucedido modus operandi. No geral, sua gestão rendera três títulos pra o Garantido e dois para o Caprichoso, sob a gestão Carmona Oliveira.

Chega à presidência da Baixa Telo Pinto, compadre de Armando, com ele os “Deltas” chegam ao auge de sua influência e poder dentro do Boi Garantido. Em cinco anos, foram três títulos sendo campeão do centenário (mais adiante a história nunca revelada sobre tal resultado) e bicampeão, em seu último ano, com o histórico “By The Book” (2014).

Nova eleição na Baixa e uma troca, praticamente, decide a eleição: a de Fábio Cardoso por Fred Góes. Cardoso, desafeto declarado dos “Deltas”, foi tirado da disputa por uma costura realizada por Armando e aceita por Telo. Adelson Albuquerque compõe chapa com Fábio Cardoso levantando a bandeira “antideltas” e da reorganização do bumbá.  Com um histórico negativo de protestos de bens, de trabalhadores, leilões e milhares e milhares de reais em dívidas nem o bicampeonato foi suficiente para eleger o candidato pró-Deltas.

Vencedores, Adelson e Fábio, dispensam os serviços dos “Deltas”, desarmaram sua estrutura dentro do Boi do Povão e os deixaram Armando e seus colaboradores no limbo [não por muito tempo!]. De olho em um retorno triunfal, encontraram exílio/abrigo justamente naquele para o qual fora criado para destruí-lo: no Boi Caprichoso.

Em 2015, Armando e alguns de seus mais fiéis colaboradores trabalharam para o Boi da Estrela (sob a presidência de Joilto Azêdo) para vencer o festival e dessa forma enfraquecer seus “algozes”. No maior escândalo da história do Festival, o Boi Garantido (de Adelson e Fábio) fez o que o Boi Caprichoso nunca tivera coragem e a decência de fazer: abrir as entranhas do boi e revelar o mar de lama envolvendo o grupo: os famosos áudios de 2015. Neles, Armando do Vale e Chico Cardoso aparecem tramando contra o Boi Garantido visando à vitória do então arqui-inimigo da Francesa e do Palmares, o Boi Caprichoso.

Link: http://amazonasatual.com.br/audio-com-denuncia-de-compra-de-jurados-mobiliza-diretorias-dos-bois-em-parintins/

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Figura 02: Plano de Captação de Jurados adotado pelos “Delta”.

 

CAPÍTULO III

RECURSO E FEITOS

 

Para levar adiante o projeto “pentacampeão” era necessário investimento. Como à época o boi não dispunha de grande volume em cotas de patrocínios de onde tirar? Do boi de arena. Nos dois primeiros anos do projeto, o boi foi para o sacrifício para um “bem” maior: vencer.

Mas, esta fonte não poderia sustentar as ações do ano seguinte. A solução viria dos ingressos pertencentes ao bumbá, a venda de cadeiras e arquibancadas especiais de 2001 financiaram o modus operandi  (algo em torno de R$ 250 mil reais). Essa ação de antecipação de recursos é o início da astronômica dívida do bumbá revelada pela auditoria realizada por Adelson no inicio de seu mandato. No total, o rombo nas contas encarnadas somavam R$ 36 milhões entre dívidas fiscais e judiciais.

A estratagema surtiu o resultado esperado: o tricampeonato. A ação foi repetida no ano seguinte e a venda antecipada dos ingressos do Boi foi realizada por um valor superior aos supostos R$ 250 mil de 2001. Tendo como base que esses recursos oriundos da venda de ingressos à época correspondia a 30% do orçamento anual, pode-se dizer que além do Boi de Arena, artistas, funcionários, prestadores de serviços e fornecedores foram para o sacrifício pagando a conta.

Com a antecipação desses montantes o Boi Garantido entrava na arena totalmente comprometido. Em outras palavras, fazia um ano devendo o seguinte. Esta situação fragilizou a situação financeira do Bumbá, o travando em termos de investimentos , exceto para o modus operandi comandado por Armando. O mesmo era prioridade absoluta em muitas gestões da Baixa, pois ele rendia títulos. Mas, também dividendos. Um mero detalhe para muitos e preocupação para poucos.

Em 2003, Lula é eleito presidente do Brasil e os bois foram convidados para a festa de posse em Brasília. Especula-se que foram pagos R$ 500 mil em cachê (250 mil para cada bumbá), acredita-se que uma parte da fatia encarnada foi injetada para amortizar o déficit de arena “descapitalizando” a ação para aquele ano. Tal decisão, teria sido tomada devido à pressão e a cobrança por abortar o rubro projeto do pentacampeonato e a extrema necessidade de uma vitória azulada para a manutenção do próprio festival.

Com  o passar dos anos o valor do modus operandi aumentou significativamente, os R$ 250 mil de 2001 não eram suficientes para desenvolver os trabalhos e ações de 2004, 2005 e 2006, por exemplo. Especula-se que para a operação do esquema eram disponibilizados R$ 300 mil/ano destinados a estrutura e logística e outros R$ 300 mil/ano destinados a aliciar os jurados. O que dificilmente pode-se comprovar uma vez que o esquema implantado no seio da Cidade Garantido não deixava pista, rastro, provas e ou indícios substanciais. Assim foi por muitos anos até 2015.

A primeira vitória do projeto em 99 fora pavimentada (não foi a única) em cima do que diz o regulamento quanto ao descarte de notas. Ao acordar em pontos corridos, ou seja, sem descartes de notas, o resultado por uma grande diferença era mais do que óbvio para qualquer meio entendedor de matemática. Os 92,5 pontos super potencializou um Garantido que na arena não fora absoluto e muito distante de ter sido superior.

Na segunda vitória, ocorreu o maior de todos os feitos do grupo até hoje: o empate em uma disputa de dois. Qualquer disputa entre dois adversário, até mesmo “porrinha” e ou par ou ímpar, jamais terminará em empate, mas o festival daquele ano terminou com algo inimaginável. Ao decidir em anular a menor e maior nota as chances de um empate eram altíssimas e nenhum mecanismo/quesito de desempate fora criado.

Só para ilustrar a apuração daquele ano, a representante do Boi Garantido na mesa apuradora junto à Comissão de Jurados foi Ana Paula Perrone .Aliás, um fato muito curioso e sui generis aconteceu naquele dia: o sumiço de uma das folhas de apuração. Isso porque um dos jurados rasurou a nota em numeral atribuindo nota menor para o Caprichoso e a corrigiu por extenso para maior justificando-a. Por força do regulamento,  a nota válida seria a por extenso e justificada.

Como tudo no mundo bovino começa e termina em um grande rebuceteio, esse fato não poderia fugir à regra. Muita discussão, acusações e rebuceteios ao ponto da folha de apuração simplesmente sumir diante de todos. Até hoje, dezessete anos depois do ocorrido, ninguém (exceto a pessoa que afanou a folha) sabe a justificativa do jurado. Sabe-se que a nota por extenso era maior do que a numeral porque a representante do Boi Caprichoso conseguiu visualizá-la. Não é difícil imaginar o resultado levando em consideração a nota por extenso : Caprichoso campeão!

Em 2001, nitidamente, o Boi Garantido entrou na arena à ferro e papelão, com um acabamento tacanho e incêndios na galera e na arena. Mas, nada disso foi suficiente para derrotá-lo: venceu por 92,5. Para se ter uma ideia da discrepância do julgamento, um dos jurados imputou nota menor ao Amo do Boi Caprichoso pela barra de fitas de sua indumentária ser 0,3 cm menor do que a habitual usada no Bumba-Meu-Boi, mas não conseguiu visualizar a cratera aberta na galera, os bombeiros entrando na arena para apagar o principio de incêndio no módulo central (a vista de todos!) e tampouco os caixotes de papelão aparentes nas alegorias aparecendo os sacos de cimentos usado para a pastelagem, por exemplo.

Em 2009, umas das juradas escolhidas por nome de Estrela agradou os fiscais do Boi Caprichoso e intrigaram os “Deltas”, mas para total sorte do grupo ao encontrá-la no aeroporto para o embarque rumo a Manaus e, por conseguinte, a Parintins a grata surpresa: a cor do seu cabelo era vermelho. Os fiscais azulados com a delicadeza de um rinoceronte com dor de dente não pediram e, sim, exigiram que a jurada trocasse a cor. Evidente que os “Deltas” visualizaram a oportunidade e o Boi Caprichoso começou a perder o título ali mesmo no aeroporto.

Os fiscais do Garantido saíram na imediata defesa da jurada afirmando que acreditavam em sua idoneidade, em seu currículo e que não seria a cor de seu cabelo que iria o pôr em cheque ou dúvida. Além do mais, dizer para uma mulher que usava a cor vermelha no cabelo desde a adolescência que a mesma deveria pintá-lo de outra cor por capricho e levantando a bandeira de que assim evitaria-se transtornos não é das melhores táticas de conquista.

Estrela não só não pintou o cabelo de outra cor como também criou certa antipatia com o Boi Caprichoso, antes mesmo de o ver na arena. Para piorar, a representante do Garantido na casa dos jurados naquele ano foi a ex-bbb Milena Fagundes. Ao final da primeira noite, Milena foi hostilizada pela galera do Boi Caprichoso nas arquibancadas especiais e na saída das cabines dos jurados. Adivinhem quem estava ao seu lado enfrentando a cólera azul?

Exatamente ela: Estrela. A Jurada saiu com Milena sob chuva de garrafas de água, latas de cerveja e xingamentos de toda a sorte protegendo-a com o próprio corpo. Ali o Boi Caprichoso perdera o festival. As notas de Estrelas foram decisivas para o Boi Garantido conquistar o tricampeonato, faz-se uma ressalva: 2004/2005/2006 foram os anos em que a Trevisan comandou a captação e escolha de jurados.

Os tentáculos do grupo encarnado já haviam penetrado na empresa através da amizade de Milena e Armando com as principais peças chaves da empresa. Essa relação foi revelada através de matéria publicada no jornal Em Tempo assinada pelo jornalista Keynes Breves onde foi apresentado e-mails trocados entre Milena, Armando e outros deltas onde comentava-se que a amizade com executivos da empresa foi determinante para o sucesso dos trabalhos.

O ano dos sortilégios no Festival sem dúvida nenhuma foi o do centenário dos bumbás, em 2013. Ambos comemoraram e tematizaram a data sendo vencido pelo Boi Garantido por 0,3 décimos de diferença. Mas, esta história começa na eleição do Boi Caprichoso em 2010 vencida pela empresária Márcia Baranda. 2013 influenciaria três eleições (presidente do Caprichoso, governador e presidente do Garantido) e os “Deltas” precisavam se redimir da derrota de 2012. E par isso, contaram, indiretamente, com ajuda do andar de cima. Na manhã do primeiro dia de apresentação na arena do Bumbódromo reuniram-se o então governador do estado, Omar Aziz, a ex-primeira dama Nezima Aziz, o empresário Joilto Azêdo, o artista Rossy Amoêdo e assessores mais próximos.

Nesta reunião foi decidido que Rossy, o candidato natural na sucessão do Caprichoso pelo grupo político de apoio ao governador (o mesmo de Telo e dos Deltas), abriria mão da cabeça de chapa para ser vice de Joilto. Conta a lenda que uma outra reunião acontecia em outro ponto da ilha entre dois “assessores governamentais”, um represente da Baixa e um delta de altíssima patente. Na conversa, supostamente, ficou combinado um valor para o modus operandi entrar em cena mais uma vez: R$ 1,3 milhão.

Deste montante, R$ 300 mil seriam disponibilizados em 24h de uma conta particular para o andamento das ações necessárias para a derrota do Boi Caprichoso. R$ 500 mil para os dois representantes bovinos (R$ 250 mil/cada) e os outros R$ 500 mil seriam pagos através de contratos fictícios em nome de uma empresa situada em Manaus que atuava no ramo de iluminação pública de última geração.

Tal empresa teria sido, provavelmente, aberta com os recursos desviados do Boi Garantido ao longo dos anos em que o esquema na Baixa do São José reinou absoluto. Assim como a compra de hectares de terra, cavalos de raça, cabeças de gado, imóveis no Rio de Janeiro e mansões (em Parintins e em Manaus).

Pela diferença de 0,3 décimos pode-se deduzir que a missão de derrotar o Caprichoso não foi das tarefas mais fáceis, uma vez que sua presidente consciente do que estava acontecendo nos bastidores e do que/quem viria a enfrentar preparou um boi fortíssimo e reforçou seu time de fiscais. Mas, não foi o suficiente: os “Deltas” venceram mais uma com uma poderosa, rica e influente ajuda do andar de cima.

Em 2014, um Caprichoso jamais visto na arena: pequeno, confuso, desorganizado e perdido. Tudo que os “Deltas” sempre sonharam. Por um descuido na documentação do Corpo de Bombeiros e o temperamento de um dos fiscais do Caprichoso que adentrou à casa dos jurados aos berros para que os mesmos seguissem o regulamento. Mal sabia ele, que dias depois [na apuração] esta recomendação voltaria-se contra o mesmo. Resultado? 14,5 de diferença: Garantido bicampeão.

 

CAPÍTULO IV

POR MENORES

 

Muitos por menores acontecem nos bastidores do Festival Folclórico de Parintins envolvendo os dois bois que deixariam qualquer um perplexo. Neste capítulo, a revelação de alguns deles (os publicáveis!).

Para muitos, o mosdus operandi “Delta” consistia apenas na pura e simples “compra” de jurados para beneficiar um ou outro boi. Por muitos anos essa foi a base do esquema/projeto,  mas não era somente isso: havia um jogo de sedução e conquista que a complementava e, em alguns casos, substituía a “compra”. Caprichoso e Garantido entraram por um caminho desonesto, imoral e não condizente com a festa e sua envergadura.

Drogas (Licitas e ilícitas), sexo e  aliciamento foram os principais meios usados para conquistar a simpatia e a predileção dos jurados. Cocaína, maconha e êxtase eram fornecidos para os jurados [que as solicitavam] durante sua estadia na ilha por ambos os bois. Diga-se de passagem que no inicio, o Boi Caprichoso recusava-se a usar destas estratagemas, mas devido as constantes derrotas viu-se obrigado a adotar a mesma tática.

Em 2004, um dos jurados fez um pedido inusitado a um dos fiscais do Boi Caprichoso: queria cocaína. O fiscal que não tinha o conhecimento de onde encontrar a “mercadoria” para satisfazer o jurado pediu ajuda para um “poeirinha” (ajudante de galpão) que o levou ao Bairro do Itaúna onde realizou a compra. Em 2007, um dos jurados da cabine localizada no lado azul da arena pediu ao fiscal do Garantido bebida alcoólica (não permito para os jurados), mas não era qualquer uma: tinha que ser Antártica.

A cerveja oficial do festival à época era a Kayser e o rubro fiscal ficou na dúvida e titubeou passando a demanda para outro colega no lado oposto da arena. Mas, para o azar o tal jurado fez o mesmo pedido para o fiscal do Caprichoso que foi rápida do gatilho e pôs um curumim da FAB – Força Azul e Branca (credenciado) para comprar a cerveja fora do Bumbódromo. A cerveja era posta em lata de refrigerante (Coca-Cola) para despistar o fiscal contrário: deu certo!

O jurado passou a noite toda assistindo às apresentações tomando a sua cerveja predileta, debaixo dos olhos do rubro fiscal e o mesmo crente que era refrigerante. Ao final da apresentação, o jurado muito alegre agradeceu o fiscal blue ao pé do ouvido e no resultado as notas imputadas ao Boi da Estrela, coincidentemente foram superiores às do Boi do Coração.

Em outro ano, um dos jurados (de meia idade) vindo para ilha encantou-se por uma das representantes dos bumbás. Evidentemente, que tal representante se aproveitou da situação e seduziu o velho ancião, a mesma costumava ter longas conversas  com o jurado durante a madrugada (pós-apresentações) em seu quarto dentro da casa destinada à Comissão Julgadora. Coincidentemente, também, as notas atribuídas para o bumbá da tal representante foram superiores às notas do boi contrário.

Garotas e garotos de programas eram visitas constantes nas casas dos jurados ao longo destes anos para satisfazer as carências, desejos e pedidos dos ilustres julgadores. Namoradas, namorados, amigos e familiares foram trazidos pelos bois para agradar os mais exigentes. As passagem, hospedagens e alimentação destas pessoas eram pagos pelos bois, pois valia [e ainda vale!] tudo para conquistar a simpatia de um membro da Comissão Julgadora.

Em 2008, um dos jurados (que este ano retornou ao festival para julgá-lo) confidenciou que gostaria muito de ganhar uma TV LCD 48”. Um dos  chefes dos fiscais prometeu presenteá-lo desde que fosse bondoso com o seu boi. “Acordo” celebrado, notas atribuídas e até hoje estar por receber o presente. Este ano, ao chegar em Parintins e reencontrar o representate do tal bumbá o relembrou da promessa e o mesmo transferiu à falha ao presidente do boi à época.

Há uma lenda urbana entre os fiscais ocorrida quando ainda havia as recepções aos jurados realizadas pelos bois muito significativa. A turma da Francesa e do Palmares estava mais afinada do que nunca, ou seja, marcando de perto toda a movimentação dos “Deltas” não deixando espaço para os mesmos agirem [ledo engano!]. A recepção do Boi Caprichoso foi um sucesso, os jurados ficaram encantados com a criatividade e o calor humano do povo azul. A comitiva partiu para a Baixa do São José, lá os jurados ficaram no pier da Cidade Garantido recepcionados pelos presidente, Comissão de Artes e itens individuais masculinos e femininos quando de repente um batuque se ouve no recinto e distante [no meio do Rio Amazonas] uma canoa trazia o Boi Garantido.

Ao fundo, um pôr do sol deslumbrante (característico da ilha), que “enrubecia” o horizonte e as águas do grande Amazonas. Da área de mata, ao lado do curral encarnado, saem curumins e cunhatãs a brincar, correr descalços e a velha guarda do outro lado a entoar suas toadas de outrora. Bastou para a emoção tomar conta dos jurados e deixar os fiscais do Boi Caprichoso atordoados ao ponto de não perceberem onde estava o “pulo do gato”.

O Boi Garantido distribuiu CDs (lacrados, obviamente) aos jurados entregues de um a um na boca do bumbá. Há quem diga que em dois destes estavam a recompensa prometidas pelo modus operandi para fazer do Garantido campeão: não deu outra. A expertise do modus operandi da Baixa chegou ao nível de usar o óbvio ao seu favor e por ser óbvio passara despercebido pelos seus fiscalizadores.

Alguns deste por menores, são chocantes e parecem muito distante da festa que é realizada às claras nas apresentações na arena do Bumbódromo. Mas, infelizmente, estes fatos foram costumeiros e corriqueiros ao longo dos anos por ambos os Bois.

 

Link:  http://test.imajji.net/topic/page/d24-em-debate-festival-de-parintins-parte-3

 

 

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Figura 03: Os “mimos” ofertados  aos jurados para a obtenção de simpatia e boas notas.

 

CAPÍTULO V:

LEGADO

 

Se olharmos pelo lado objetivo dessa história, os “Deltas” são os grandes campeões desta era. Este ano, o grupo atinge a maturidade, ou seja, 18 anos de criação com um histórico invejado: 12 vitórias. Um tetracampeonato (1999 ~ 2002); um tricampeonato (2004 ~ 2006); dois títulos alternados (2009  e 2011) e um tricampeonato (2013 ~ 2014 no Garantido e 2015 no Caprichoso).

Além do legado de vitórias, os “Deltas” deixaram para o Boi Garantido vitórias históricas com amplos pontos de diferença: 92,5, 25,5 e 14,5. Também é legado delta (indiretamente) a formatação do Boi e a modificação realizadas nas apresentações com a contribuição de Chico Cardoso. A trinca pensante do Garantido é mais um legado do grupo: Fred Góes, Armando do Vale e Chico Cardoso.

São legados deltas: o mapeamento dos Estados, secretarias, universidades é um legado delta; A fórmula sedução x conquista x aliciamento da Comissão Julgadora (no molde profissional e organizacional que conhecemos nos dias de hoje); A flexibilização da apresentação de acordo ou a pedido de terceiros por questões de relevância para o resultado final; A reorganização, estruturação e surgimento dos “Alfas”; Feitos inimagináveis (empate de dois e ritual inexistente obtendo 10,0); A supremacia [números de títulos] do Garantido e a perda da credibilidade do festival são legados deltas.

Hoje, este legado é rejeitado dentro e fora do Boi Garantido, não pela moralidade pura e simples e sim pelas circunstâncias. Porém, muito mais pela força dos fatos apresentados em 2015 em plena passagem de som quando todos ouviram os áudios entre Armando, Chico e Kid.

Ali, quando um do tripé atentou contra a honra e a memória do fundador do Boi Garantido todo o legado delta caiu por terra e pesou contra os antes adorados, intocáveis e necessários. Ao conspirar e armar contra o Boi do Povão o todo poderoso da Baixa do São José, Armando do Vale, ficou do tamanho de um grão de areia com a apresentação maciça dos áudios que embora ilegais estejam distantes de serem falsos.

 

CAPÍTULO VI

“DELTA” BLUE

 

O alcance dos Deltas e do modus operandi da Baixa do São José foi proporcional ao seu poderio, ou seja, foi grande. Tão grande ao ponto de atingir o coração do Boi Caprichoso: o Conselho de Artes. Por muitos anos um delta “honorário” com alma azul e madeixas reluzentes agiu de forma sorrateira em benefício próprio e a serviço do modus operandi.  Este delta blue tinha como principal missão contaminar a mente pensante da Francesa, implantar falsas informações da Baixa do São José e, principalmente, repassar o projeto (total ou parcial) de arena.

Esse membro, não oficial do grupo, agiu livremente com um poder jamais visto dentro do Boi da Estrela. Os olhos dos “Deltas” na Gomes de Castro tinha um sonho que o consumia: ser presidente do Boi Caprichoso e, para isso precisava diminuir os seus possíveis concorrentes. Este “Delta” disfarçado é chamado, pelo autor desta,  de “Farol de Alexandria”.

Credita-se que o Farol tenha sido a voz no ouvido do então presidente azulado Joilto Azêdo para que ele provasse do fruto proibido: a maçã do pecado que no Éden bovino, é representado por Armando do Vale. Mas, nosso protagonista não poderia, mais do que nunca, aparecer. Então, é contratado o elo (baseando-se nos aúdios divulgados em 2015) entre o “modus operandi”, Armando e o Caprichoso: Chico Cardoso.

Seguindo a máxima de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo, Armando e Chico (preteridos e exilados por Adelson e Fábio) foram recebidos no Boi Caprichoso de formas muito distintas: um oficialmente (Chico) e outro ocultamente (Armando). Aliás, pode-se supor que o Farol de Alexandria tenha sido um dos “agentes de execução” (junto com o chefe dos fiscais Márcio Azêdo, também segundo os aúdios) do esquema na Francesa sendo merecedor de um busto esculpido em bronze fundido, cravejados de rubis do mais escarlate brilho na entrada da Cidade Garantido por relevantes serviços prestados à Baixa bem antes da criação dos Deltas.

 

 

CAPÍTULO VII

PASSADO E FUTURO

 

Armando do Vale e os “Deltas” em um passado não tão distante foram essenciais e indispensáveis para a supremacia encarnada no festival e para a ampliação do histórico de vitórias, bem como o número de troféus na galeria da Baixa do São José. Um passado de glórias e vitórias envolvido atos bastante questionáveis, do ponto de vista ético, que levaram o Festival Folclórico de Parintins da fama à lama e à lona. Mas, hoje esse passado ameaça o futuro de ambos dentro do Boi Garantido.

Enfraquecidos, internamente, após a derrota eleitoral de 2014, com a imagem maculada com os áudios de 2015, sem o apoio presidencial e longe do núcleo de poder regente na Baixa, Armando e seus apaixonados e abnegados colaboradores são rejeitados e rechaçados por todos os candidatos à presidência do Garantido. O discurso atual é de moralização, ética e de respeito à festa, contudo pode aparentar (superficialmente) certa demagogia eleitoral e conveniência quando se olha para trás e para os lados.

O futuro dos deltas (e dos protagonistas dos aúdios) está nas mãos dos sócios e da ação de perdoar ou não a “traição” de 2015 quando foi imputada uma dolorosa derrota ao Boi do Coração. Será o fim, definitivo, dos “Deltas”? Encontrarão, novamente, abrigo no peito do “inimigo”? Afinal, os “Deltas” são heróis ou vilões desta história?