Prazer, toada!

Por Sinny Lopes

Nasci da paixão e dos versos cantados ao luar, de homens simples e de sangue caboclo. Alimento-me de sentimentos e experiências de matutos, mateiros, índios, brancos e negros. Sou fruto das madrugadas, das cordas do companheiro- amigo, das travessias do dia a dia, da paixão e da rivalidade.

Meu berço foram os terreiros de chão batido de onde subiam poeira. Fui criada solta na rua e qual cunhatã nova, uma vez viçosa, perturbei curumim grande. Minha alma é livre e festeira. Sou prima-distante do samba-raiz. Sou oito ou oitenta: ora 2×2, ora 3×4.

Minha origem é simples e mestiça. Há quem diga que, no sentido original, sou brega. Se um dia fui ou ainda sou não sei responder. Contudo, uma certeza tenho: cafona não sou, nunca fui!. Me dou bem com todos os gêneros e classes sociais: do surdo à palminha; do rico ao pobre. Não faço distinção entre o erudito e o popular, agrego valores e elementos.

Sou expansiva e expressiva. Sou a deusa-mãe em um mundo de mortais, do meu ventre vieram os deuses de ontem e de hoje que perpetuam a minha descendência e linhagem.

Sou dos rios, dos lagos, dos furos e igarapés. Sou da várzea e da terra firme; sou do inverno e do verão. Sou do azul e do vermelho; sou da estrela e do coração. Sou de Lindolfo e de Roque; sou de Cid e de Monteverde.

Sou da ilha: Sou Parintintin!

Sou de Chico, Tadeu, Paulinho, Emerson, Ronaldo e Simão: meus imortais. Cresci. Ganhei o mundo!

Sou a ação ou o fato de toar; aquilo que é percebido ou captado pela audição. Sou parte, não à parte; sou companheira, não aventura.

Sou a magnitude e o esplendor de uma alvorada rubra; sou a alegria e a vibração de um boi de rua em um chão de estrelas.

Sou a expressão máxima de uma cultura. Sou a fiel tradução do amor; sou a identidade cultural de uma terra e de sua gente. Sou um canto de amor tanto quanto um grito de guerra; sou não um, mas dois Bumbás!

Permeio o sonho dos “xamãs das palavras” – escribas da alma e do coração – que compõe-me verbalizando  sentimentos e inspiração. Sou o princípio da festa e o canto de despedida. Sou o elo que liga a mente ao papel; a fantasia à realidade. Sou o toque do criador; sou a essência da criatura.

Essa sou eu…

Prazer,

TOADA!