Um mestre chamado Jair Mendes

Por Sinny Lopes

O homem nasce de um ato de amor que traz consigo a fecundação da vida. O mito, enquanto ser humano, nasce da grandeza de seus feitos, da glória de suas conquistas e da imortalidade de sua existência por meio de seu nome. Na mitologia cabocla, seres fantásticos habitam um universo folclórico formado por guardiões, encantados e feras que ornam o imaginário caboclo com magia e fascínio.

Entre Boto, Yara, Cobra-Grande e tantos outros, um mito parintintin destaca-se por suas “invenções”. Aos 15 anos, debutou na arte da pintura a pedido de um pescador (Lindolfo Monte Verde) dando forma e cor ao símbolo que até hoje emociona e representa toda uma nação: o coração na testa do Boi Garantido.

Na condição humana, buscou conhecimento e aprimorou sua arte e técnica em outras paragens e qual um Da Vinci caboclo pincelou o dom e a genialidade em uma tela em branco fazendo sua Monalisa: sua história.

Do “Boi Biônico” que deu fim aos rijos movimentos, trouxe consigo a leveza da luz que a alma da vida alumia, como tão bem descreveu o poeta. A carcaça morta ganhou vitalidade e liberdade inovando a brincadeira de boi, na mais pura genialidade inventiva ao moldar o boi “duro” em um boi maleável feito a partir de sarrapilha, esponja e tecido.

Debaixo do seu novo brinquedo-invenção, surgiu um gingado de um corpo (algo inédito no festival) e ao retorcer o seu pescoço fez (e faz) o povo arrepiar. Ilusão que transformou dois seres em um só: o seu tripa em segredo é o próprio coração que lhe dá vida, escultura e artista na perfeita união de criação e criador, traduziu outro poeta muitos anos depois.

Ao marco histórico da passagem de uma festa amadora e estática para uma, profissional e móvel que rompeu fronteiras.Tornando-se exportadora de uma engenhosa robótica-artística disputada e respeitada em todo o país. Engenharia esta, que teve seu início pelas mãos de Jair Mendes, o primeiro de seu ofício a dá movimentos às alegorias, aclamado por seus pares e colegas de profissão como mestre entre gênios, magos e deuses.

Suas “invenções” o fizeram um mito. Referência e história viva da arte da ilha sendo o patriarca absoluto dos artistas parintinenses: o maior entre os maiores. Seu nome e sua figura franzina alcançaram o píncaro da glória bovina: não pertencem a uma cor. Na história do festival, muitos são linhas e poucos são parágrafos: eis um exemplo destes.

O mito viu um acontecimento de sua carreira tornar-se uma lenda urbana. Todos, vermelhos e azuis, esperavam com curiosidade o que o gênio aprontaria a cada ano nas apresentações no tablado. “Seo” Jair fizera uma grande cobra que engoliria uma tribo inteira. Tudo pronto, tudo ensaiado e nada poderia dar errado. Seria isso se não fosse em Parintins e se não houvesse a rivalidade entre a Francesa e a Baixa do São José.

O segredo da cobra foi descoberto: um buraco no tablado faria com que a tribo sumisse aos olhos do público dando a impressão que fora, de fato, devorada pela víbora. A turma do Caprichoso, sorrateiramente, pregou o alçapão minutos antes do início da apresentação do rival e a célebre frase fora proferida: “Não tô nem aí pra cobra do Jair”. Agonia perreché… História sendo escrita.

Outra “mítica”, porém, pouco conhecida estória é a da estátua de Ajuricaba que o artista foi incumbido de fazer para realizar o sonho do então Governador do Estado, Amazonino Mendes, de ter um monumento erguido no Encontro das Águas. Chamado pelo mais poderoso assessor do governador à época, Jair só recebera uma única exigência: a estátua teria que ser vista da frente da Ponta Negra tanto quanto da frente do Careiro da Várzea. Para tal, a estátua teria que alcançar 48 metros de altura. Só para ter como base, o Cristo Redentor, no Rio, possui 28 metros. Jair esculpiu, com ajuda de mais três artistas parintinenses, uma réplica em madeira de 1,60m em uma escala de 30 x 1.

O assessor ao ver a peça ficou maravilhado ao ponto de cobri-la com um pano preto e seguir para a casa do governador, que por sua vez estava tirando sua tradicional sesta. Duas horas depois, acorda o Negão e vendo aquilo coberto com um pano preto a sua frente perguntou o que estava acontecendo.

Então, o assessor retirou o pano e o governador quase caiu para traz tamanha era a perfeição da réplica. Em toda a sua vida nunca vira uma escultura como aquela: o Ajuricaba era fabuloso. Mas, um detalhe lhe chamou a atenção: a dote do índio. O membro era demasiadamente grande e grosso alcançando quase que o joelho da estátua. Amazonino então perguntou ao artista: Ó Jair Mendes! Isso está no tamanho de réplica, na estátua original que tamanho vai ficar isso? “Do tamanho de um poste de cimento de alta tensão só que com o dobro de grossura”, respondeu o artista.

O negão quase enfarta sentado na rede em que minutos antes estava dormindo. O governador pediu desculpas aos presentes, mas chegou a uma triste conclusão: “se a gente colocar um índio com um “troço” desses no Encontro das Águas, a gente vai virar piada mundial”.

Assim fora desfeito o sonho do governador de erguer um monumento na porta de entrada da capital do Estado, por conta do avantajado dote do índio Ajuricaba.

Causos à parte, “Seo” Jair ensinou aos filhos, Jairzinho e Teco, a arte de criar e de dá vida através de movimentos ao imaginário mágico e fascinante do caboclo autodidata. Herança e legado de um cromossoma genuinamente artístico tanto quanto caboclo.

Seu nome não está somente na memória popular. Está na entrada central do Galpão de Alegorias do Boi Caprichoso e estará sempre guardado nos corações de todo amante do folclore da ilha.

Nos mais de cinquenta anos de profissão, este grande homem, pai, companheiro, amigo, ícone, mestre e mito merece que o saudemos em reverência por toda sua contribuição à grandeza e à genialidade do festival: Jair do Garantido, Jair do Caprichoso… Jair de Parintins!!!

Citações musicais:

Meu Amor é Caprichoso (Chico da Silva);

Terceira Evolução (Tadeu Garcia);

Luz da Evolução (Cláudio Batista).