Uma toada, uma festa, uma vitória!

Por Sinny Lopes

2003, passeata da vitória do Boi Caprichoso, o brio, a fibra, a alegria, o ego e, principalmente, a honra azul e branca fora “vingada”. Depois de amargar quatro derrotas consecutivas, três delas altamente duvidosas (2000/2001 e 2002) ,que imprimiu à Nação Azul e Branca duas derrotas históricas fazendo o torcedor azulado desacreditar no festival por tanta patifaria, conseguimos vencer o contrário.

A alma dos apaixonados pelo Boi Caprichoso estava dilacerada, o orgulho ferido e a dignidade à prova. Porém, uma toada surgiu como um grito de protesto, um mantra e um recado claro aos nossos inimigos (Deltas). Após o resultado, uma multidão invadiu o curral Zeca Xibelão. Muitos eram os sorrisos, os abraços tanto quanto eram as lágrimas, porém desta vez não mais de tristeza e desalento e sim de alegria e felicidade. No rosto de cada torcedor podia-se ver a satisfação de resistir e o prazer de ser resiliente. Debaixo de um sol escaldante sai o trio da Gomes de Castro em direção à Amazonas, os passos eram minúsculos, até porque ali ninguém tinha pressa.

Toada comendo no centro, povo cantando firme, o sol queimando a pele. Passam os vaqueiros, campeões no item, os meninos e meninas das tribos coreografadas e do tribão, passa a turma animada da FAB (Afrânio, Dyuler, Heliandro, Wallace e Cia Ltda). Uma massa azul e branca a desfilar, imponente e majestosa, pela Avenida Amazonas que transformou-se em um mar azul de amor e ao chegar à curva da Casa Góes um coro uníssono ecoou sendo espalhado pela brisa do lugar:

“Alô povo da Francesa, do Palmares e de toda a cidade

Esse contrário faroleiro anda dizendo que é tradição, mas não é verdade.”

Da Francesa à Santa Clara, “rudiamos” à cidade em direção ao marco zero: a Catedral de Nossa Senhora do Carmo. Entre uma toada e outra, a noite já fazia sinal de sua chegada pintando o céu em tons de azul celestiais e as primeiras joias do infinito surgiam a luzir. A passeata passará das quatro horas com a multidão frenética e incansável cantando, pulando, bebendo, extravasando o sentimento de ser campeão (naquela época sabia-se comemorar uma vitória com toda pompa e circunstância).

Nesse ano pude entender o porquê, em 1996, me apaixonei pelo Boi Caprichoso e pela sua galera: uma força emana tanto de um quanto de outra. Uma paixão desmedida, um amor como tão bem descreveu o poeta: avassalador. Em cada olhar, lágrima e sorriso daquele povo eu me vi refletido: vi garra, nobreza, orgulho e, sobretudo, verdade. Um título conquistado com muito sacrifício, com muita luta, com muitas lágrimas e nele o resgate da nossa autoestima.

No ano decantado como o nosso fim, uma toada nos fez lutar e reagir com toda a força de nossas almas:

“Enquanto meu Rio Amazonas correr para o mar

E a minha bandeira no céu estrelado estiver tremulando eu hei de lutar

Soberano fluindo o encanto dessa brincadeira

Pois os campeões são sempre assim reagem quando tudo parece o fim.”

Citações Musicais:

Tradição e Raiz (César Moraes, César Oliveira e Chiba)