O velho, o curumim e eu

Por Sinny Lopes

1999, véspera de festival, o sol se punha tornando o céu dourado-carmim com leves pinceladas de lilás puxando para o azul escuro e trazendo consigo a noite na ilha dos Parintintin. Saindo do aeroporto Júlio Belém peguei um táxi maravilhado com aquele céu ao ponto de contemplá-lo de dentro do veículo. O fascínio foi maior: pedi para o motorista que me deixasse em frente ao posto de gasolina à alguns metros depois da Cidade Garantido porque o vermelho daquele lugar não fazia bem aos meus olhos que não eram azuis na cor em si, porém na minha paixão eram qual duas safiras.

Resolvi andar um pouco por aquela rua, pois havia algo diferente no ar: eu estava na tão famosa e decantada Baixa do São José. Sua simplicidade e brejeirice não condiziam, para mim naquele momento, com sua fama deixando-me intrigado: de onde vem toda a grandeza que fazia daquele lugar poesia popular? Andei a refletir pela Odovaldo Novo até chegar à Lindolfo Monte Verde, muito próximo ao velho curralzinho da Baixa e deparei-me com um senhor fumando um porronca com um chapéu nas mãos, ao seu lado um curuminzinho barrigudinho, feinho, cabelinho de cuia e sem camisa. Ao fundo uma toada que até hoje quando a ouço lembro-me daqueles dois:

“Eu brinco boi como brinca uma criança

Papel de seda na ponta da lança

No coração o encarnado e o verde da esperança

Dessa selva imensa!”

Tinha 18 anos à época. O velho ancião vendo que fiquei parado e um tanto admirado perguntou-me: vem de onde? Respondi: de Manaus. Faz tempo que você vem pra cá? perguntou. Esse é o meu quarto ano. Então, já escolheu o teu boi? Sim, o Caprichoso. Ele não disfarçou a “cara” de reprovação, olhou para o curuminzinho e disse: é alesado não é? Por sua vez, a criança apenas sorriu como quem concordasse e respondesse à pergunta.

Sem jeito, perguntei se ele não poderia dar-me um copo d’água. Mandou, então, a criança ir buscar na cozinha trazendo um copo de plástico todo riscado com um pitiú de peixe de lascar, mas, a sede era maior. Prendi a respiração e saciei minha sede, afinal, a água era boa e geladinha. A toada continuava e revelava-se nas mãos daquele senhor:

“Flores de papel crepom na copa do chapéu
Moça bonita, boi de veludo, lua no céu
Dança das cores do meu boi-bumbá!”

Homem e criança, velho e curumim, estavam enfeitando o chapéu para o festival. De uma sacola plástica o menino retirava flores de papel novinhas nas cores vermelho e branco e repassava ao senhorzinho que por sua vez as colavam. Perguntei: ele é o seu filho? Não. É meu neto! Estou ensinando para ele, como meu avô me ensinou, a enfeitar o chapéu para brincar no Garantido, respondeu todo orgulhoso.

Tá vendo aquele curralzinho ali na frente? Sim, estou. Ali nasceu o Garantido das mãos do saudoso Lindolfo no terreiro de sua mãe, a Dona Xanda. Daí olhei não só para o velho curral como também para as casas ao seu redor e por toda a extensão da rua: modestas, porém pintadas e decoradas nas cores do velho chapéu. Ao ver aquele ancião ao lado do seu neto enfeitando seu chapéu tão simples ouvindo uma toada entre uma baforada e outra de seu porronca pude encontrar a resposta do meu questionamento: vem de sua gente.

“É encarnado e branco, é encarnado!
É encarnado e branco, é encarnado!
Dança das cores do meu boi-bumbá.”*

Despedi-me daquela dupla de contrários com lágrimas nos olhos e com um sentimento de respeito muito grande no coração. Peguei um mototáxi e segui para a Avenida Amazonas onde fiquei hospedado. Brinquei o festival ao lado da minha paixão, mas, ao passar pela mesma rua para retornar a Manaus um olhar atento naquele local.  Foi ali, da maneira mais pura, simples e singela que aprendi e testemunhei o amor do parintinense por sua tradição e por seu boi.

Hoje, talvez, aquele velho tenha desencarnado e aquele curumim tornou-se um homem-feito e um novo questionamento me toma todas as vezes que passo por àquela rua: estará ele ensinando ao seu filho àquilo que aprendera com o avô? De coração, quero crer que sim. Para a continuidade da verdadeira brincadeira de boi em sua original essência.

* Dança das Cores (Fred Góes – Garantido). 

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