Saudades!

O crescimento do Festival de Parintins resultou na saída de uma festa local e “amadora” para uma festa internacional e reconhecidamente “profissional”, e gerando com isso benefícios e prejuízos.

Pelo lado da visibilidade, tal crescimento foi exponencial e satisfatório projetando tanto o evento quanto quem o produz (artistas e artesões) ao mercado consumidor de talento criativo e de mão de obra qualificada na área do entretenimento popular. Isto é, os grandes eventos culturais, sociais e esportivos país afora.

Pelo lado da capitação de recursos, esse crescimento foi de igual modo e com isso a ganância saltou aos olhos em tudo que cerca o evento: passagem, hospedagem, alimentação e bebidas.

O Festival profissional/moderno tornou-se caro, vazio e restritivo.

Caro ao escalpelar o visitante com valores surreais já tanto críticos nesta temporada. Agora surgem os valores tabelados para bebidas dentro do Bumbódromo: cerveja e refrigerante em lata por R$ 5,00 é um ABUSO!

Vazio ao afugentar os visitantes com condições cada vez mais fora da realidade que impactam tanto no humilde torcedor quanto no mais “endinheirado”. A galera entra nas arquibancadas na base do “sobe um desce um” para evitar superlotação em nome da segurança. Em mais de 50 anos de existência, e mesmo na era Bumbódromo, nenhuma das duas arquibancadas desabou por conta de superlotação.

Restritivo ao proibir várias práticas adotadas por anos e anos, porém com a advento da ganância e da política de exploração comercial do evento tornaram-se “retrógadas” e inaceitáveis. O torcedor que enfrenta a fila para a arquibancada popular estando sujeito à chuva e sol não pode levar seu guarda-chuva/sombrinha para se proteger, a mesma é jogada na entrada do Bumbódromo.

É inadmissível que este torcedor leve sua própria água e lanche, pois terão o mesmo destino: o lixo.

Saudades dos tempos que víamos as arquibancadas entupidas de gente frenética e enlouquecida a vibrar por seu boi. De ver aquelas escadas de acesso qual um tapete humano com os braços erguidos.

Saudades de “encostar” bochecha com bochecha nas gerais, exprimido qual sardinhas em lata; de rechaçar quem subisse com roupas que remetessem ao boi contrário com chuva de bagaço de laranja. Que coisa boa era, naquele calor, chupar uma laranja e guardar o bagaço para quem “pagasse de doido”.

Fazer isso hoje em dia? Não mais! Você seria no mínimo retirado na hora e detido por vandalismo e agressão física.

Saudades dos tempos do Soraia, Comuna´s e Chapão superlotados de corpos suados a dançar, paqueras certas e vários esquemas. Saudades da muvuca desorganizada e tumultuada da Avenida Amazonas e da Praça da Catedral, do seu chafariz onde tantos foram felizes reunindo-se com sua “moçada”.

Saudades do tempo em que o festival era menos “profissional” e  “politicamente incorreto”, acessível, frequentado e divertido. Antes, a festa era feita para o povão. Hoje é para os bacanas, caretas e gananciosos de plantão. Quem viveu aquele tempo jamais o esquecerá e quem não viveu, dificilmente, o viverá em sua glória. Naquele tempo se brincava boi com  pouco: bons tempos!