Alô Brasil, tem festa na floresta!

Alô Brasil, quem tá falando é aqui de Parintins, conhecida como a terra do bumbá, quero fazer um convite e chamar todo mundo para vir celebrar.  É junho, mês da cultura popular amazônica, mês da maior expressão cultural do país que acontece na cidade de Parintins-Amazonas. Boi Garantido e Boi Caprichoso duelam na arena do folclore, chamada de bumbódromo, por ter o formato da cabeça de um boi.

              O Boi bumbá amazônico é uma das maiores expressões folclóricas do pais e o motivo de orgulho dos amazonenses apaixonados pela sua cultura popular.   A miscigenação cabocla, com a cultura europeia e a cultura indígena, constitui a base da cultura popular amazônica, mas, ao se tratar especificamente do boi bumbá, não podemos esquecer da cultura negra, principalmente por causa das relações originárias do festival com o bumba meu boi nordestino. Os rituais mágicos de nossos índios até nossas primeiras manifestações musicais, somaram-se tambores da selva, flautas de osso e taquara aos atabaques, ganzás, afoxés, acordeons, pianos e clássicos de Bach, Beethoven e Chopin que viraram lundu, samba, carnaval e boi. Tudo isso e muito mais, você encontrara no boi bumba de Parintins.

   O Boi Caprichoso surgiu, em 20 de outubro de 1913. Vindos de Crato, Ceará, os irmãos Raimundo Cid, Pedro Cid e Felix Cid, chegaram em Parintins em busca de trabalho, e prometeram a São João Batista: caso conseguissem emprego, reverenciariam para sempre o Santo com um boi de pano, e assim o fizeram, denominando-o caprichoso. O Boi Caprichoso é conhecido como “diamante negro” em razão deste ser todo na cor preta – e possui na testa uma estrela, mas as cores que predominam são o azul e o branco.

               O Boi Garantido é o boi que defende as cores vermelha e branca, o boi da Baixa do São José, bairro onde morou seu criador Lindolfo Monteverde, que após ter tido sérios problemas de saúde, prometeu a São João Batista que, caso se curasse, faria seu Boi brincar durante toda sua vida. A graça foi alcançada, Lindolfo cumpriu a promessa e assim nasceu o Boi Garantido, lembrando da época em que ainda se sentava ao colo de sua avó para ouvir as lendas do boi de pano maranhense que dançava nas noites de São João.

                Cada bumbá leva para a arena, 21 itens, individuais e coletivos, para defender um tema escolhido previamente. Os membros da direção artística de cada bumbá, dividem o tema nos três dias e planejam cada detalhe que é escondido a sete chaves que só serão revelados ao grande público quando os portões dos galpões se abrem na semana do festival, ocasião que cada agremiação conduz suas alegorias gigantescas para a concentração do bumbódromo.

  Na arena, a história gira em torno do Auto do Boi, para o qual há várias versões. Sendo que a mais comum é a seguinte: Grávida, Mãe Catirina deseja comer a língua do boi mais bonito da fazenda onde vive, o que leva seu marido, o peão Pai Francisco, a matar o animal de estimação de seu patrão, o amo do boi. O homem é descoberto e preso. Para salvar o boi, o amo manda chamar um médico e um padre, que acabam conseguindo ressuscitar o animal. Pai Francisco é perdoado e todos iniciam uma grande festa. Trazido do Maranhão, o espetáculo de Parintins ganhou algumas adaptações: Itens individuais que representam a poética cabocla e indígena, como a Cunhã Poranga, Pajé, Rainha do Folclore, Porta Estandarte e Sinhazinha da Fazenda. O fio condutor do espetáculo é o levantador de toadas e o apresentador. Ambos cantam e animam suas respectivas galeras. A galera (torcida) contrária não pode se manifestar enquanto o seu adversário está na arena, sob risco de perda de preciosos pontos.

Ao longo das próximas semanas, iremos contar um pouco das lendas e rituais que cada bumbá irá apresentar esse ano, dos itens individuais e coletivos.

                         Por Djane Senna, consultora tributária por obrigação, produtora artística por vocação, chef diletante, fanática por doces, cinéfila de paixão, romântica incorrigível, que acredita que a liberdade e o amor caminham juntos.